a minha parede azul

Eu olho para minha unha pink, minha parede azul e meu descontrole “last season” por estampas de bicho e penso que... ah, como o poder de fazer o que quiser é agoniante!
Enfim... férias. Bem, férias mesmo que considero viajar. Tenho uma paixão descontrolada por aeroportos e rodoviárias (!), mas desta vez as férias servirão simplesmente para organizar. Os pensamentos, as vontades e a vida prática de uma pessoa adulta. Aff, essa parte da pessoa adulta me dá um certo arrepio.
Não que crescer e envelhecer sejam coisas ruins, mas perder o olhar do novo de dá arrepios. Eu continuo achando tão adultinho fazer compras no supermercado, mesmo que isso faça parte da minha rotina (rotina mesmo) há uns 15 anos, continuo achando super cool quando decido a cor e pinto minha parede, continua achando que minha mãe tem muito orgulho de mim cada vez que ligo e digo que já paguei mais uma parcela de tantas dívidas que caíram sobre a minha cabeça no último ano e meio.
Hoje é um dia muito importante. Vou literalmente quitar as pendências do meu pai com o governo brasileiro e seguir com o inventário sem fim.
Não que eu ache incrível tem que pagar impostos atrasados, mas o que dói mesmo é que não participei da decisão de não pagá-los.

Meu pai era o homem da diversão.



Na minha casa todo entretenimento vinha dele. Minha mãe proveu todo o necessário para a minha sobrevivência, colocou meus pés no chão e me ensinou que o importante é ser honesta. Meu pai me ensinou todo o periférico. Não faltava dinheiro quando o assunto era música e beleza, não a beleza da vaidade, mas a beleza do olhar, dos livros de fotografia, da curiosidade pelo novo.
Eu resolvi ficar adulta no mesmo momento que ele foi morar em outro estado e ali perdi um laço que consegui e mantenho com a minha mãe, o de opinar.
E, caso me fosse perguntado (o que eu duvido muito) eu ia dizer, mas pai... paga essa merreca ai agora pq daqui uns anos pode virar um monstro... e foi o que aconteceu.
Escrevendo aqui, tomei consciência do quanto meus pais se completaram e, poxa, como tenho sorte então.
Não que minha mãe seja avessa as artes, muito pelo contrario. Minha mãe é uma senhora culta e divertida. Alegre é sempre como as pessoas a definem. Estudou e sabe muito sobre artes, tem fascínio por educação, aprendeu espanhol aos 59 anos, mas solta o verbo mesmo quando toma uma cervejinha. É a mais honesta das pessoas que conheço. Não gosta dever, mas não sabe cobrar, é especialista em generosidade e afeto, com conhecimentos profundos em ansiedade e perseverança.

Minha mãe é foda (ui, desculpe aí Dona Tetrezinha!).



Meu pai é o complemento perfeito. Nunca se aprofundou no estudo das artes, mas tinha total noção e sensibilidade para o belo. Totalmente irresponsável que o dinheiro esporádico que recebia, que passava a maior parte do tempo duro mesmo. Ainda bem, se tivesse dinheiro mesmo tenho certeza que seria o típico playboyzão.
Meu pai gostava do que era bom. Do vinho, perfume e roupas, até os carros e viagens, que de fato foi fazer só depois dos 60 anos. Vivia num mundo dele, onde tudo parecia ser possível.
Um dia chegou em casa com um aparelho de som tão incrível para aos padrões da época que perguntei na mesma hora “oh pai, a gente agora é rico classe alta (tinha aprendido na escola!)”. Ele riu, mas acho que ele imaginava que um dia seríamos mesmo.

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